quarta-feira, 15 de março de 2017

Saudade perdida

Outro dia fomos para uma campanha de vacinação nas fazendas e fui escalado para cobrir três: Boa sorte, Alecrim e Engenho Fazenda.
E um fato muito interessante nos aconteceu. Foi na divisa entre boa sorte e boa vista que encontramos um senhor contador de histórias que lá estava morando a mais ou menos uns 40 anos. Já era o final de nossa missão e ele nos convidou para degustar uma jaca. Assim foi feito, sentamos em um banquinho de madeira enfrente a casinha de palha pequena, sem luz elétrica, sem água e ainda possuía um fogão a lenha bem maltratado pelo tempo.
E o senhor partiu a jaca e começamos a degustar a mesma. Ele sentou do nosso lado querendo contar alguma coisa. Conversa vai, conversar vem e ele se soltou, abriu a boca com suas histórias e que histórias.
E assim iniciou suas histórias, algumas verídicas outras nem tanto. Ele começou contando a história de um cavalo alado que surgia diante dele com alguém em cima, mas ele nunca conseguiu desvendar quem na verdade estava no lombo daquele alazão.
Depois surgiram várias histórias bem interessantes contadas pelo senhor e uma bem especial me chamou atenção. Segundo ele, um filho morreu tinha uns nove anos de idade e ali mesmo tinha sido enterrado e nós observando o que o senhor tinha para nos acrescentar, ficamos parados e atentos e o senhor continuo a contar sua história que estava ficando interessante.
Foi quando ele parou um pouco enchendo os olhos de lágrimas e continuou dizendo, meus filhos esse menino todos os dias vem me visitar, ele sai desse canavial sempre correndo como sempre fazia chegando até aqui na porta olha pra mim e volta pro canavial onde ele foi enterrado  e isso já tem uns trinta anos.
Aí o cabelo arrepiou meu irmão, olhamos um para o outro e o senhor continuava com os olhos marejados contando a sua história que estava guardado a muitos anos. Foi  então que alguém falou que tínhamos de ir embora, mas o senhor pediu para demorar só mais um pouco e ofereceu mais uma jaca. Ficamos, e o senhor veio com mais uma história de sua vida.
Surgiu mais uma de partir o coração. falou que já tinha um bom tempo que sua mulher tinha falecido e ele não conversava com ninguém. Continuo contando e disse, meus filhos vocês não sabem o quanto foi bom essa visita de vocês eu tenho cinco filhos que moram em matriz de Camaragibe e eles nunca mais desde o dia que minha esposa morreu vieram me visitar e eu não tenho ninguém para desabafar meus sentimentos, vivo aqui sofrendo, já fui muito bem de vida e hoje vivo aqui por opção minha, pois perdi o amor em viver depois que meu filho e minha mulher foram morar com Deus e nunca mais voltaram.


ÂNGELO CASSIANO

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